hoje eu chorara às crianças
hoje eu choro às crianças
hoje desespero-me pela crianças
na rua, o menino arrasta uma
cama de ferro, junta o suicídio
da periferia, da favela,
da comida sem panela
da panela sem comida
sem roupa, sem guarda
hoje eu choro as crianças
hoje eu assisto o choro das crianças
hoje choro com as crianças
a impossibilidade da minha
roupa ser mais limpa
ser mais inteira
sem remendos
hoje choro os remendos dos
dias, que são coisas
que vejo
e o menino carrega ainda
aquele pedaço de cama
ninguém viu isso
hoje o menino ainda
carrega a cama de ontem
cama de dormir
hoje cama do ferro-velho
cama que dará o dinheiro
do pão, do sapato, do tênis
apertado, da única oportunidade
de continuar o choro
agora com uma cama a menos.