sábado, 29 de março de 2014

acredita-se

hoje eu chorara às crianças
hoje eu choro às crianças
hoje desespero-me pela crianças

na rua, o menino arrasta uma
cama de ferro, junta o suicídio
da periferia, da favela,
da comida sem panela
da panela sem comida
sem roupa, sem guarda

hoje eu choro as crianças
hoje eu assisto o choro das crianças
hoje choro com as crianças

a impossibilidade da minha
roupa ser mais limpa
ser mais inteira
sem remendos
hoje choro os remendos dos
dias, que são coisas
que vejo
e o menino carrega ainda
aquele pedaço de cama
ninguém viu isso
hoje o menino ainda
carrega a cama de ontem
cama de dormir
hoje cama do ferro-velho
cama que dará o dinheiro
do pão, do sapato, do tênis
apertado, da única oportunidade
de continuar o choro
agora com uma cama a menos.



sábado, 22 de março de 2014

não te esqueço

não te esqueço
escrevo essas
causas da vida
coisas do tino
da tua vida

escrevo pra ti
na rua
na escola
no meu trabalho
tua mordida

na tua vida
uma coisa
uma agonia
na minha
as duas coisas

na tua está
repartida
uma rua
uma ida
uma via

não te esqueço
porque te escrevo
na rua na via
no meu pensamento
estás a sós comigo.