domingo, 21 de novembro de 2010

a estação dos animais

Vi uns animais ontem andando a umas estações,
estavam doidos, até se batiam, deviam de estar loucos,
pertubados em chegar cedo ao pasto.
Tinha até um pastor bem-vestido.
Pregava em alto tom, encochava as pessoas contra os trilhos e Deus.
Ele pregava Deus no inferno. Ele diz que vai gozar do Céu de Deus.
Porém estava sendo gozado no inferno de Deus.
Ele era gozado por outros animais.
Animais de Deus. Animais de Deus que não ouviam, só engordavam, não criam. Nem enxergavam, nem Deus.

Poemeto à Teresa sensual

Foi à feira.
Disse ao homem da banana.
Meia dúzia, moço, por favor.
só meia, respondeu ele.
Por enquanto, só, moço, tenho de comprar ainda mandiocas.
Respondeu o homem novamente, sei onde tem umas bem baratinhas e graúdas.
Não, moço, eu já compro do Ignácio. Ele tem umas bem fresquinhas, brigada.
Não há de quê, dona.

alternativa

não tenho seguidores neste caminho,
este destino é sempre a detenção de minhas ideias,
quanto mais ideias mais loucuras cometo na estrada, esta via da vida.
estes dias da direção incerta com pensamento certo em tornar tudo mais vivível.
exploro-me sempre diante destes aspectos.
Porém, a saída encontra-se perdida em sempre procurar coisas a substituir outras.
Como a desigualdade de procurar ser diferente das outras desigualdades.
Notavelvemente se vê um mundo de alternativas, quase sempre, impostas.

domingo, 14 de novembro de 2010

I Homem no trabalho

Hoje, vive, aqui, neste lugar. Nesta ideia marcada, chamada de espaço geográfico. Mora aqui. Na leste. Certo dia, ele, Romeu, foi a uma entrevista de emprego. Lá chegando, deu um bom dia, com hálito amargo, à recepcionista. Ela, loira e fúnebre, olhava-o com certo preconceito burguês, funesto e pálido. Esta disse a ele, rispidamente.

– RG, por favor.

Atento às atenções, entregou-lha o documento previsto na lei dos “cidadãos”. Em seguida, ouviu uma grossa voz lhe dizendo.

– Aguarde um instante que você será atendido.

Aguardou dois minutos. Cinco. Quinze. Vinte e cinco. Quarenta minutos já se arrastavam na paciência dele. E os candidatos atrasados irritavam-no de uma maneira estonteante. Este mais bem perfumado que aqueloutro. Mulheres. Muitas. Ficou constrangido. Pôs-se a tremer as mãos e arranhar os dentes estragados, causando-lhe maior afliação. Aos quarenta e cinco minutos da espera tenebrosa, chega Juliana. Psicóloga, formada, entrevistadora e pesquisadora de olhar. A inquirente deu um bom dia. Pediu que a acompanhassem. Ele, isento de qualquer modo e crítica possível, deixou as moças irem à frente. Entrou no elevador. Uma vaga. Dez candidatos e um psicóloga. Nove mulheres. Ele e a oportunidade. O emprego e o desemprego. Calculou os cheiros, os sorrisos, as cara feias, emburradas e arrogantes. Satisfez-se de duas, as outras eram deploráveis, obsoletas, funestas. Romeu, fechado em si, engolia a saliva fria e seca. A têmpora, enrugada, pedia calma. Chegaram à sala. Todos se olhavam, se fritavam, se amavam e odiavam. Não deixavam, por mínimo que fosse, transparecer essa ridícula impressão. A mulher da entrevista brincou com a presença masculina naquele universo insólito e sem humor. Todos riram. Ele fingiu rir. Rangeu os dentes. Conteve-se por conhecê-los de outrora.

– Deixam -me apresentar, sou Juliana, tenho 27 anos, casada, não tenho filhos e trabalho aqui há dois anos. Nas horas vagas gosto de sair, correr no parque e ler. Estou lendo Marguerite Duras, uma escritora francesa, O Amante. Vamos começar, disse a moça.

– Peço, agora, que cada um se apresente.

– Por mim, ergueu o braço a primeira das nove. Érica, sou formada em publicidade, gosto de animais, não sou casada, gosto de sair com meus amigos, estou lendo...... um livro do Olivetto.

Eu, Doralice, tenho 23 anos, sou formada em Letras pela universidade do Brasil, solteira, moro sozinha com meus LP's, alguns do Chico, que gosto. No momento, leio dois livros. Um a respeito da criação verbal dentro dos romances tido como psicológicos e o outro é uma biografia do poeta Thiago de Melo. Marina, fiz jornalismo com ênfase em marketing publicitário.

– Tenho dois filhos, viúva, gosto de cuidar dos meus filhos, ler jornais e revistas da área de marketing, acho que só.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Na vila do Anchieta

E aí, veio, como tá muleque?
é nóis irmão...
como tá lá quebrada?
tá bem, mano!
bem mesmo.

As mina tá dando um trampo.
Sério?
sério, muleque.
arrumaram lá no Brás.
Numa loja dum japonês
Foi a Lú que arrumou.
Firmeza ela, hein mano.

Mas aí maninho, manda lembrança
lá pros caras.

desço lá esses dias aí.
vou ali resolver uns beó, depois tem
que levar uns baguí do meu irmão.

Tão tá, mano.
tá com nóis, o que precisá tamo aí, meu.

abraço.