sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Do outro lado do muro

Perguntava-se todos os dias
desde o terceiro mês do ano
por que produzira tão pouco.

Mas não há segredo para fome
Há somente uma resposta à pergunta
Comida no prato, ideias em mente.

Homem que não come não vive
Homem que não vive não escreve
Homem que não escreve não come.

E por detrás daquele muro menino
aquele da pergunta de todos os dias
ainda não vive, não escreve, não come.

Por detrás do muro vazio
Há um homem cheio de vida
de escrita com fome, no prato
de todos os dias.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

o teu grito me enlouquece

às vezes no quarto
te lendo no teu retrato
não te entendo
não te reconheço

desculpe, o meu ser,
eu não te entendo.
mas sei que és
ser humaníssima
és mulher, que lutas
que não cansas,
que na luta
não te alcanças.

desculpa-me a mim,
sujeito estúpido
desculpa a esta voz
minha, somente ela.

a ela não atribuo
o meu machismo,
sou fruto de sociedade
hipócrita,
não sou machista
não sou isca
sou veneno
sou a liberdade
antídoto
e cura das
vaidades,

o teu sofrimento
é cem vezes
o meu por dentro,
canta-me a mim
que o teu grito
me enlouquece.
deixa-me viver
nesta loucura
que um dia eu
me curo
do qual
um dia o mal
que o mundo
me fizestes.

terça-feira, 22 de abril de 2014

a gente vai vivendo

e bate uma saudade da infância
das coisas que fomos, 
da gente cantando no bar
ensaiando a folia da vida
rindo à toa de martinho
rindo à vida sofrida
o nosso sofrimento
um sofrimento sem leitura,
marcado com corpos
baleados, tiros, homem 
no bar, homem sem dente
mulher trepando com outro
no muro,
carro do iml
carro da polícia
carro do bandido
do armado.

a gente sofre por estações,
vai torcendo pra que tudo 
dê certo,
pra para de chover,
reza para Nossa Senhora
pra telha não cair,
torce para o rio não encher,
reza pra não ver a enchente.
pra não ver a certidão de 
nascimento boiando na
água fétida.

resumo da história da vida
da gente,
reza pra não apanhar na rua
reza pra beijar na boca
reza por um all-star
pula o muro
grita com a vida.

e vai sorrindo 
com toda essa
alegria que é viver
poderia ter sido 
menos cruel a vida,
mas mansa
menos densa
e nebulosa,
mais amigável,
com céu azul sempre,

mas ele nem sempre
está azul pra todos.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

no teu peito, vejo amor

No teu peito, pare a solidão
triste ideia das
coisas que com honra escreve
para este mundo indiferente.

No teu peito, vejo o choro,
o teu choro escorrer
junto ao leite,
leite de lágrimas,
porque a noite
te guarda
a ti e a teu choro
de abusada
de esquecida
de abandonada

No teu peito, vejo a noite
escorrer o orvalho
vejo a noite molhar teu coração

Vejo, no teu seio, a noite
pintá-la de tristeza,
vejo-te colorida com
o ódio do moribundo,
do excluso
do recluso.

vejo o teu adeus às coisas
do dia.
o mundo pode estar perdido
não queira te confundir com ele.
estando nele a confusão se instala,
inaugurando o indefinido,
nele, as tuas lágrimas de menina
vira um grande soluço de mulher,
tornado grito

cuidado, mulher, o mundo é feio,
sujo, esteja sempre certa de que
os sujos não te molham, não te limpam
os sujos te odeiam
mas a existência te ama
veja a existência persistir
no berço do dia, que é o
enxergar aquele jovem
que vai ali, quieto e quer
vê-la bem,
não lute contra a tua existência,
lute pela vida, exista para o amor,
e ódio escorre longe daqui
não te lave com ele,
porém, reúse-o para plantar,
reúse-o para regar o amor.

sábado, 29 de março de 2014

acredita-se

hoje eu chorara às crianças
hoje eu choro às crianças
hoje desespero-me pela crianças

na rua, o menino arrasta uma
cama de ferro, junta o suicídio
da periferia, da favela,
da comida sem panela
da panela sem comida
sem roupa, sem guarda

hoje eu choro as crianças
hoje eu assisto o choro das crianças
hoje choro com as crianças

a impossibilidade da minha
roupa ser mais limpa
ser mais inteira
sem remendos
hoje choro os remendos dos
dias, que são coisas
que vejo
e o menino carrega ainda
aquele pedaço de cama
ninguém viu isso
hoje o menino ainda
carrega a cama de ontem
cama de dormir
hoje cama do ferro-velho
cama que dará o dinheiro
do pão, do sapato, do tênis
apertado, da única oportunidade
de continuar o choro
agora com uma cama a menos.



sábado, 22 de março de 2014

não te esqueço

não te esqueço
escrevo essas
causas da vida
coisas do tino
da tua vida

escrevo pra ti
na rua
na escola
no meu trabalho
tua mordida

na tua vida
uma coisa
uma agonia
na minha
as duas coisas

na tua está
repartida
uma rua
uma ida
uma via

não te esqueço
porque te escrevo
na rua na via
no meu pensamento
estás a sós comigo.