sábado, 21 de maio de 2016

o trajeto do rio

à beira da nesga de água
barrenta água deste dia
barrenta água do dia
há um curso do rio
há um discurso
diante do rio,
casas e perfumes
meninas e meninos à beira
do rio

Neinha à beira do rio
Nelinha à beira do rio
casinha de Isaura,
barco de Neinha
casinha do Marco
Marca da vida
da enchente
da cheia do fim de tarde.
A casa no fim da noite
cheia de mato
cheia de rato
segue este
o trajeto do curveto rio,
estreito
sempre leito
barrento leito
do curso
discurso no rio
há a casa de Maria
Há o fim do outro dia
casa de todos,
fim do trajeto
rio, fio da água.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

sujeito determinado

Sempre estar a caminho
do rio, que sempre me
é guia, lugar distante 
da grande ilha
Sempre estar triste
com essas coisas
que aqui existem
a fome, a dor,
e o rio mal-cheiroso lá fora
que ousa a me questionar
a me ousar que não vejo
nada além dessa longa frieza
do rio mal-cheirosa na porta
de dona cheirosa, rosa, de dona zá.

domingo, 26 de abril de 2015

A caminho do amor

O homem cria
em meio ao inusitado
o estado de amor
o estar amor.

O homem enraiza-se
apaixona-se
ama-a.

O homem cria vínculo
desvincula causas
transparecem-se
motivos.

Ele desperdiça verdades
comunga as inverdades
desfaz as duas
sem motivo.

Ele ama de verdade
na semana
na cama
na esquina, à espera
de algo.

O homem recria a existência
insiste nela, deixa-a ser com ele
motor, insinua, ama
fuma na esquina.

Ele acredita em você,
lê poema, despi uma dama
a chama de mulher
egoísta, chama-a de dele

Com ela, saciam-se
de noites, e acordam
nas madrugadas
badalando uma criança
e amamentam o relógio.

O homem existe
por divindade
recria a vida
sobrevive a esta,
tem nesta incertezas,
abandona todas
após encontrar
a mulher de verdade.

Ama-a é amado,
vive a existência
sem deixando de
assistir aos percalços
descalços, pavimenta
os dias, dos dois,
juntos à beira
do caminho
de amar, amor.

sábado, 24 de janeiro de 2015

as meninas com fome

naquela escola
gélida e cálida
eu vi um bando
eu vi uma banda

não soava
não tocava
emudecia os famintos

naquela sala
gélida e cálida
calada sala
de fabricar
o nada

naquele lugar
as meninas
não comiam
não germinavam
não namoravam

naquele lugar
naquela coisa
de lugar
as meninas não comiam

eram levadas
a prostituirem-se
à escola do nada

as meninas não comiam
não se amamentavam
não amamentavam
não comiam nada

naquele insulto à vida
as meninas não cosiam
não amavam, não sonhavam
naquela escola escura do nada.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Do outro lado do muro

Perguntava-se todos os dias
desde o terceiro mês do ano
por que produzira tão pouco.

Mas não há segredo para fome
Há somente uma resposta à pergunta
Comida no prato, ideias em mente.

Homem que não come não vive
Homem que não vive não escreve
Homem que não escreve não come.

E por detrás daquele muro menino
aquele da pergunta de todos os dias
ainda não vive, não escreve, não come.

Por detrás do muro vazio
Há um homem cheio de vida
de escrita com fome, no prato
de todos os dias.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

o teu grito me enlouquece

às vezes no quarto
te lendo no teu retrato
não te entendo
não te reconheço

desculpe, o meu ser,
eu não te entendo.
mas sei que és
ser humaníssima
és mulher, que lutas
que não cansas,
que na luta
não te alcanças.

desculpa-me a mim,
sujeito estúpido
desculpa a esta voz
minha, somente ela.

a ela não atribuo
o meu machismo,
sou fruto de sociedade
hipócrita,
não sou machista
não sou isca
sou veneno
sou a liberdade
antídoto
e cura das
vaidades,

o teu sofrimento
é cem vezes
o meu por dentro,
canta-me a mim
que o teu grito
me enlouquece.
deixa-me viver
nesta loucura
que um dia eu
me curo
do qual
um dia o mal
que o mundo
me fizestes.

terça-feira, 22 de abril de 2014

a gente vai vivendo

e bate uma saudade da infância
das coisas que fomos, 
da gente cantando no bar
ensaiando a folia da vida
rindo à toa de martinho
rindo à vida sofrida
o nosso sofrimento
um sofrimento sem leitura,
marcado com corpos
baleados, tiros, homem 
no bar, homem sem dente
mulher trepando com outro
no muro,
carro do iml
carro da polícia
carro do bandido
do armado.

a gente sofre por estações,
vai torcendo pra que tudo 
dê certo,
pra para de chover,
reza para Nossa Senhora
pra telha não cair,
torce para o rio não encher,
reza pra não ver a enchente.
pra não ver a certidão de 
nascimento boiando na
água fétida.

resumo da história da vida
da gente,
reza pra não apanhar na rua
reza pra beijar na boca
reza por um all-star
pula o muro
grita com a vida.

e vai sorrindo 
com toda essa
alegria que é viver
poderia ter sido 
menos cruel a vida,
mas mansa
menos densa
e nebulosa,
mais amigável,
com céu azul sempre,

mas ele nem sempre
está azul pra todos.