domingo, 14 de novembro de 2010

I Homem no trabalho

Hoje, vive, aqui, neste lugar. Nesta ideia marcada, chamada de espaço geográfico. Mora aqui. Na leste. Certo dia, ele, Romeu, foi a uma entrevista de emprego. Lá chegando, deu um bom dia, com hálito amargo, à recepcionista. Ela, loira e fúnebre, olhava-o com certo preconceito burguês, funesto e pálido. Esta disse a ele, rispidamente.

– RG, por favor.

Atento às atenções, entregou-lha o documento previsto na lei dos “cidadãos”. Em seguida, ouviu uma grossa voz lhe dizendo.

– Aguarde um instante que você será atendido.

Aguardou dois minutos. Cinco. Quinze. Vinte e cinco. Quarenta minutos já se arrastavam na paciência dele. E os candidatos atrasados irritavam-no de uma maneira estonteante. Este mais bem perfumado que aqueloutro. Mulheres. Muitas. Ficou constrangido. Pôs-se a tremer as mãos e arranhar os dentes estragados, causando-lhe maior afliação. Aos quarenta e cinco minutos da espera tenebrosa, chega Juliana. Psicóloga, formada, entrevistadora e pesquisadora de olhar. A inquirente deu um bom dia. Pediu que a acompanhassem. Ele, isento de qualquer modo e crítica possível, deixou as moças irem à frente. Entrou no elevador. Uma vaga. Dez candidatos e um psicóloga. Nove mulheres. Ele e a oportunidade. O emprego e o desemprego. Calculou os cheiros, os sorrisos, as cara feias, emburradas e arrogantes. Satisfez-se de duas, as outras eram deploráveis, obsoletas, funestas. Romeu, fechado em si, engolia a saliva fria e seca. A têmpora, enrugada, pedia calma. Chegaram à sala. Todos se olhavam, se fritavam, se amavam e odiavam. Não deixavam, por mínimo que fosse, transparecer essa ridícula impressão. A mulher da entrevista brincou com a presença masculina naquele universo insólito e sem humor. Todos riram. Ele fingiu rir. Rangeu os dentes. Conteve-se por conhecê-los de outrora.

– Deixam -me apresentar, sou Juliana, tenho 27 anos, casada, não tenho filhos e trabalho aqui há dois anos. Nas horas vagas gosto de sair, correr no parque e ler. Estou lendo Marguerite Duras, uma escritora francesa, O Amante. Vamos começar, disse a moça.

– Peço, agora, que cada um se apresente.

– Por mim, ergueu o braço a primeira das nove. Érica, sou formada em publicidade, gosto de animais, não sou casada, gosto de sair com meus amigos, estou lendo...... um livro do Olivetto.

Eu, Doralice, tenho 23 anos, sou formada em Letras pela universidade do Brasil, solteira, moro sozinha com meus LP's, alguns do Chico, que gosto. No momento, leio dois livros. Um a respeito da criação verbal dentro dos romances tido como psicológicos e o outro é uma biografia do poeta Thiago de Melo. Marina, fiz jornalismo com ênfase em marketing publicitário.

– Tenho dois filhos, viúva, gosto de cuidar dos meus filhos, ler jornais e revistas da área de marketing, acho que só.

Nenhum comentário:

Postar um comentário