Hoje, vive, aqui, neste lugar. Nesta ideia marcada, chamada de espaço geográfico. Mora aqui. Na leste. Certo dia, ele, Romeu, foi a uma entrevista de emprego. Lá chegando, deu um bom dia, com hálito amargo, à recepcionista. Ela, loira e fúnebre, olhava-o com certo preconceito burguês, funesto e pálido. Esta disse a ele, rispidamente.
– RG, por favor.
Atento às atenções, entregou-lha o documento previsto na lei dos “cidadãos”. Em seguida, ouviu uma grossa voz lhe dizendo.
– Aguarde um instante que você será atendido.
Aguardou dois minutos. Cinco. Quinze. Vinte e cinco. Quarenta minutos já se arrastavam na paciência dele. E os candidatos atrasados irritavam-no de uma maneira estonteante. Este mais bem perfumado que aqueloutro. Mulheres. Muitas. Ficou constrangido. Pôs-se a tremer as mãos e arranhar os dentes estragados, causando-lhe maior afliação. Aos quarenta e cinco minutos da espera tenebrosa, chega Juliana. Psicóloga, formada, entrevistadora e pesquisadora de olhar. A inquirente deu um bom dia. Pediu que a acompanhassem. Ele, isento de qualquer modo e crítica possível, deixou as moças irem à frente. Entrou no elevador. Uma vaga. Dez candidatos e um psicóloga. Nove mulheres. Ele e a oportunidade. O emprego e o desemprego. Calculou os cheiros, os sorrisos, as cara feias, emburradas e arrogantes. Satisfez-se de duas, as outras eram deploráveis, obsoletas, funestas. Romeu, fechado em si, engolia a saliva fria e seca. A têmpora, enrugada, pedia calma. Chegaram à sala. Todos se olhavam, se fritavam, se amavam e odiavam. Não deixavam, por mínimo que fosse, transparecer essa ridícula impressão. A mulher da entrevista brincou com a presença masculina naquele universo insólito e sem humor. Todos riram. Ele fingiu rir. Rangeu os dentes. Conteve-se por conhecê-los de outrora.
– Deixam -me apresentar, sou Juliana, tenho 27 anos, casada, não tenho filhos e trabalho aqui há dois anos. Nas horas vagas gosto de sair, correr no parque e ler. Estou lendo Marguerite Duras, uma escritora francesa, O Amante. Vamos começar, disse a moça.
– Peço, agora, que cada um se apresente.
– Por mim, ergueu o braço a primeira das nove. Érica, sou formada em publicidade, gosto de animais, não sou casada, gosto de sair com meus amigos, estou lendo...... um livro do Olivetto.
– Eu, Doralice, tenho 23 anos, sou formada em Letras pela universidade do Brasil, solteira, moro sozinha com meus LP's, alguns do Chico, que gosto. No momento, leio dois livros. Um a respeito da criação verbal dentro dos romances tido como psicológicos e o outro é uma biografia do poeta Thiago de Melo. Marina, fiz jornalismo com ênfase em marketing publicitário.
– Tenho dois filhos, viúva, gosto de cuidar dos meus filhos, ler jornais e revistas da área de marketing, acho que só.
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